Para podermos discutir de forma típica o que se passava nas sociedades do “Tempo da oralidade primária”, de Pierre Lévy, deveríamos juntar a comunidade (MPEL) e debater presencialmente o tema, utilizando a palavra como único canal de informação possível. Assim estaríamos a atribuir à palavra o estatuto e consequente dignidade que esta detinha nas sociedades anteriores ao aparecimento da grafia.
Nas citadas sociedades, também designadas por alguns autores por “Sociedades Tradicionais”, visto que o conhecimento fluía entre gerações por meio da tradição, todo o saber era transmitido oralmente, a memória humana era o único recurso disponível para o armazenamento e difusão do conhecimento ás sociedades vindouras, e consequentemente a inteligência era directamente proporcional à memória do indivíduo. O ancião era sinónimo de sabedoria acumulada exercendo normalmente um papel importante na sociedade, e estas por sua vez beneficiavam do capital intelectual dos mais velhos para se afirmarem colectivamente.
Nestas sociedades sem escrita, a melhor forma de veicular o conhecimento era com recurso á narrativa, envolvendo é claro a audição, a observação, a imitação e a repetição, reiteradas ciclicamente de forma á mensagem poder ficar perpetuada na própria sociedade, e ser ainda passível de transmissão ás suas subsequentes. A temporalidade nestas sociedades era assim marcada por um movimento circular de “eterno retorno”. Era assim que Lévy caracterizava o primeiro dos três tempos do espírito.
Quanto a Ong, e comparativamente com Lévy, existem grandes semelhanças em alguns dos elementos caracterizadores da oralidade primária, como sejam, a necessidade de repetição do conhecimento para poder passar de gerações em gerações, o recurso aos mitos, heróis, contextos visuais e sonoros, utilizados como elementos facilitadores da propagação e pretendida retenção do conhecimento, e o próprio factor social e comunitário inerente ao pensamento e à sua expressão nas culturas orais.
Quanto à aludida diferença de perspectiva de referencial temporal, entre Ong e Levy, parece-me que não se trata propriamente de uma diferença mas antes de uma complementaridade, uma vez que ambos o identificam, embora Ong o aborde com maior profundidade, concretizando-o.
Passarei a seguir á análise do segundo tempo – O tempo da escrita.
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